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João Alberto Peres

29 anos, economista pela FEA/ USP e mestre em finanças pela FGV,
atua na área de finanças estruturadas de uma consultoria econômica
em São Paulo. economistabrando.blogspot.com

 

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Um belo monte de desinformação

Ganhou bastante repercussão na mídia uma mobilização digital contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte. Capitaneada pelo Movimento Gota D’Água, a mobilização convoca internautas a assinarem uma petição à presidente para interromper a obra. Provavelmente o maior motivo de tanta repercussão seja a presença de atores globais no vídeo de divulgação declaradamente inspirado em um similar norte-americano com Leonardo di Caprio, que convoca a população dos EUA a votar nas eleições —lá o voto é facultativo.

No Brasil, os atores ficam cinco minutos apresentando os argumentos contrários à hidrelétrica a ser construída no Pará. Espero que eles tenham sido remunerados pelo trabalho, pois assim eles estariam na função deles de performar o roteiro para o vídeo. Caso contrário, ao se voluntariarem para o trabalho, significa que eles aceitam todos os argumentos como verdadeiros. E como vocês verão abaixo, em certo grau eles podem ter sido manipulados pelo movimento. E o mais grave: estão levando a população ao engano e manipulando-a da mesma forma.

Vamos aos falsos argumentos e aos fatos.

- O empreendimento vai inundar 500 km² da floresta amazônica. Realmente é muito, mas para o tamanho da obra —e a quantidade de energia que irá produzir— pode ser considerado pouco. Vale ressaltar que cerca de 230 km² já são do leito natural do rio. Ademais, a título de comparação, o desmatamento da floresta amazônica é de 7.000 km² nos doze meses entre agosto de 2009 e julho de 2010 —último levantamento disponível. Na primeira metade dos anos 2000, este desmatamento estava da ordem de 20.000 km² por ano —de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Se a preocupação é a floresta, seria melhor desviar os protestos para uma atividade que desmata 14 hidrelétricas Belo Monte ao invés de ser contra uma usina que desmatará ao longo de toda sua operação uma área equivalente a 0,01% da floresta.

- A usina só vai produzir energia durante 40% do ano. Trata-se do chamado fator de capacidade do empreendimento. Isto é, da potência total instalada, 40% dela será efetivamente produzida, em média, ao longo do ano. Esquecem de informar —ou ocultam do telespectador— que de todos os empreendimentos hidrelétricos no país, o fator de capacidade é, em média, em torno de 50%. Ou seja, não chega a ser nenhum absurdo Belo Monte possuir um fator de capacidade de 40%. Mais adiante, os atores/personagens apresentam projetos de energia eólica e solar como uma alternativa a Belo Monte. Mas os fatores de capacidade destes empreendimentos chegam a ser do mesmo patamar ou bem menores que os de Belo Monte. Portanto, em termos de eficiência energética, Belo Monte não pode ser considerado um projeto ruim.

- 80% dos investimentos da usina serão custeados com recursos públicos. É de se imaginar que os atores/personagens se refiram ao financiamento do BNDES. Os recursos do banco de fomento de fato são públicos, mas o BNDES é um banco e todo recurso aportado no projeto retornará aos cofres públicos com juros.

Por fim, os atores/personagens ainda têm a ousadia de dizer que precisamos nos informar mais sobre o país. Seria uma autocrítica?

 


Edição 888, 3/12/2011