:: COLUNISTAS

Você está em: Home / Colunistas / Alexandre Staut

Contato   E-mails   Edição Eletrônico     Twitter  
  Facebook    

   

Alexandre Staut

Jornalista e autor do romance Jazz Band na Sala da Gente. http://twitter.com/stautalexandre

 

Aumentar texto   Diminuir texto  


O jardim da minha infância

Juntamente com a biblioteca municipal e o Theatro Avenida, o horto florestal é um dos lugares públicos de que mais gosto em Pinhal. Quando criança, via o espaço como um lugar místico, digno de conto de fadas. Chamava-o de minifloresta e aguardava ansioso os dias de férias, quando me perdia pelas ruas atrás do asilo, para visitá-lo.

Depois, saí de Pinhal, e deixei de passear em meio àquelas árvores frondosas, das quais se sobressai um belo flamboyant, de mais de cem anos. Nunca, porém, perdi de vista o espaço silencioso, a sombra boa da bela árvore que cresce no meio do terreno, espalhando-se por quase todo o lugar. Sempre que estou na cidade passo de carro pela ruazinha simpática em que o jardim dos meus sonhos está localizado, mas, como quase sempre visito Pinhal em fins de semana e feriados, nunca tenho a chance de pisar na paisagem afetiva de infância.

Na semana retrasada, porém, aproveitando uns dias de folga em Pinhal, pedi a minha irmã que me levasse ao horto para um passeio descompromissado. Cheguei ao lugar depois de uma dessas chuvas de verão, no meio da tarde, e assim que coloquei os pés no lugar, senti o cheiro bom de folhagem e terra.

Encontrei um horto organizado, com milhares de mudas de mais de cem espécies, da flora local e de todo o Brasil, com placas indicativas... Árvores, flores, trepadeiras, plantas ornamentais, medicinais, todas em canteiros bem arrumados.

O funcionário que me atendeu, um rapaz preparado e atencioso, levou-me para ver alguns canteiros, e então comentou sobre as espécies, deu dicas de plantio de algumas árvores, mostrou o lugar onde as mudas são preparadas, a mistura de adubos naturais e disse que podia ficar à vontade para pegar ramos da horta, que tem bálsamo, dill, camomila, manjerona, entre tantas outras plantas. Também disse, gentilmente, que podia levar duas mudas para casa. A partir da terceira, devia pagar pouco mais de R$ 1.

Pouco mais tarde, enquanto recolhia alguns ramos de temperos e plantas para o chá da tarde, um outro funcionário se aproximou e contou que sobram mudas no lugar. A população, tanto do perímetro urbano quanto da zona rural, simplesmente se esqueceu deste cantinho charmoso da nossa cidade.

Saindo do horto, passei pelas ruas centrais da cidade e então me dei conta de que as árvores da cidade não chegam a crescer. Quando estão ficando bonitas, vem um e corta. Não consigo entender este raciocínio torto, juro. As árvores dos canteiros da avenida Oliveira Motta, para citar um exemplo, foram arrancadas em 1997, se não me falha a memória. O lugar hoje apresenta pequenas palmeiras, um tanto chochas. Fiz as contas e percebi que, desde que as belas árvores foram cortadas, já se passaram longos 15 anos. Pois em uma década e meia não era para o lugar apresentar belas e frondosas árvores? Será que as palmeiras plantadas —ou seriam coqueiros?— são anãs? Fica esta dúvida. Se alguém puder me responder, eu agradeço. Depois, chegando perto da casa da minha mãe, na frente do hospital, me lembrei dos flamboyants da minha infância, arrancados na década de 80 pelo poder público local. Será que com todo esse papo de meio ambiente não estava na hora de uma conscientização da cidade sobre a importância do reflorestamento local?

Em meio aos meus questionamentos, deixo registrado o prazer que tive ao retirar, na biblioteca, o calendário —ou a “folhinha”, como a gente fala em Pinhal— de 2012 e ver o belo trabalho do fotógrafo Carlos Aliperti, que retratou paisagens selvagens locais, muito simples e belíssimas, de forma tão poética.

 


Edição 897, 11/2/2012