EDITORIAL

Democracia e república

     Diante dos acontecimentos políticos e econômicos que agitam o mundo, falar em república, hoje, adquire uma significação paradoxal: o “novo” é o resgate do “velho”. Esse é o paradoxo: o conceito clássico de “coisa pública” retoma seu sentido originário. Res publica, do latim, significa exatamente “coisa pública”, “coisa do povo”. Nesse sentido, um governo republicano é aquele que põe ênfase no interesse comum, no interesse da comunidade, em oposição aos interesses particulares e aos negócios privados, cabendo ao Estado o papel moderador e regulamentador, em especial no campo da economia. Sob esse ponto de vista, a república se volta para a finalidade do governo a serviço do bem comum.
O pensamento do político e filósofo John Locke (1632 - 1704) contribuiu definitivamente para estabelecer o conceito e as bases do Liberalismo, que valorizava o individualismo, a liberdade e a propriedade privada. Este modelo ganhou força e passou a ser predominante no mundo todo, ofuscando o sentido clássico “Da República”, que não passava de empecilho para a “infalível” ordem econômica, cuja ação estava associada aos interesses individuais e não aos interesses comuns e coletivos.
     Ironicamente, a história parece estabelecer uma espécie de revanche, isto é, na mesma ocasião em que a economia, a grande coqueluche do mercado, desmorona, o conceito de república —com a ação oportuna do Estado— reaparece como possibilidade de uma nova chance de refazer os velhos paradigmas para equilibrar as forças políticas, os interesses sociais e o sistema econômico, dando alento à dinâmica social. Não se trata de um ufanismo republicano, muito menos de uma fantasia utópica, mas apenas uma ocasião de refazer percursos e corrigir rumos, tendo em vista uma sociedade mais equilibrada e justa.
     A república no Brasil, proclamada em 15 de novembro de 1889, também não fez os interesses públicos se sobreporem aos privados, basta olhar os escândalos da atualidade para ver que isto persiste. O filósofo Renato Janine Ribeiro, da Universidade de São Paulo (USP), faz uma reflexão muito pertinente sobre a relação entre democracia e republica, afirmando que “enquanto a democracia tem no seu cerne o anseio da massa por ter mais, o seu desejo de igualar-se aos que possuem mais bens do que ela, e, portanto é um regime do desejo, a república tem no seu âmago uma disposição ao sacrifício, proclamando a supremacia do bem comum sobre qualquer desejo particular”. Ou seja, “na temática republicana é a idéia de dever” que se sobressai. Desse modo, “a democracia, para existir, necessita da república. Isso, que parece evidente, não é nada óbvio! Significa que para haver o acesso de todos aos bens, para se satisfazer o desejo de ter, é preciso tomar o poder —e isso implica refrear o desejo de mandar (e com ele o de ter)—, compreender que, quando todos mandam, todos igualmente obedecem, e, por conseguinte devem saber cumprir a lei que emana de sua própria vontade. Para dizê-lo numa só palavra, o problema da democracia, quando ela se efetiva —e ela só se pode efetivar sendo republicana— é que, ao mesmo tempo em que ela nasce de um desejo que clama por realizar-se, ela também só pode conservar-se e expandir-se contendo e educando os desejos”.
     Contenção dos desejos como um modo de praticar a ética e a virtude é uma necessidade em nossa sociedade de consumo. Portanto, o aprimoramento da democracia passa por essa capacidade republicana de sensibilidade, solidariedade e cooperação. O fundamento de uma boa república, mais até do que as boas leis é a virtude dos cidadãos.
     Virtude, civismo, contenção do desejo, retorno à consciência natural... É, o mundo parece estar mesmo mudando. Quem sabe, as bases de uma república mundial estejam sendo forjadas nas brechas da história. Feliz 15 de novembro! E que nossa democracia seja cada vez mais republicana!