As
pilantrópicas
Todo
final do ano o governo divulga o déficit
da Previdência Social e ele não pára
de crescer segundo as fontes do INSS. Há
uma grande polêmica sobre a existência
desse rombo, uma vez que alguns especialistas,
entre eles o senador Paulo Paim do PT do Rio Grande
do Sul, insistem em dizer que parte considerável
do que é arrecadado em nome da previdência
é desviado para outras atividades e, por
isso, sobra dinheiro no caixa. Além disso,
há outras contas inexplicáveis como
as aposentadorias do antigo Funrural,que nunca
recolheu um tostão e foi distribuído
como moeda de troca em épocas de campanhas
eleitorais do passado. Essa conta também
não deveria estar lá, mas está,
e faz parte do tal déficit proclamado aos
quatro ventos. Não que as pessoas desamparadas
não mereçam um auxílio, aliás,
ele já existe, mas não podia pesar
sobre a Previdência. O Senado, por iniciativa
do Paim, aprovou um projeto que reajusta os aposentados
que ganham acima do piso de um salário
mínimo, com o mesmo percentual do salário,
ou seja até agora só quem ganhava
um salário mínimo recebeu reajuste
real. Quem ganhava mais de um salário,
não. Por isso é que esses aposentados
começaram a perceber que a cada ano ganham
menos, e está cada vez mais próximos
do piso de um único salário mínimo.
Certamente a base do governo
na Câmara vai impedir que o projeto aprovado
no senado passe na Câmara e a justificativa
vai ser, mais uma vez, que não há
dinheiro, que o déficit já é
muito grande. Curioso é que antes era a
atual oposição que não queria
e hoje quer. Hoje é a antiga oposição,
que virou governo, que não quer. Portanto,
parece que os aposentados têm sempre como
aliado a oposição não importa
o nome que tenha. Se desta vez houver pressão
sobre os deputados e o projeto passar na Câmara,
restará ao presidente Lula vetar... Já
se disse também que se a Previdência
cobrasse todas as dívidas seria possível
melhorar sua situação econômica,
mas a tal dívida só aparece de tempo
em tempo como o cometa Halley. Aparece, dá
um brilho na imprensa, e some de novo. E ninguém
paga porque os recursos à disposição
dos devedores não têm fim.
Outra sangria: a isenção
do pagamento da parte patronal das sociedades
filantrópicas, que não recolhem
o valor de vinte por cento sobre a folha de salários.
É muito justo que uma entidade que presta
serviço público que o Estado não
pode prestar tenha isenção. Afinal,
ela não tem finalidade lucrativa. Porém,
existem mais de duas mil e seiscentas entidades
que são suspeitas de não se enquadrarem
na filantropia e por isso são conhecidas
como pilantrópicas. São organizações
de fachada, que privilegiam seus diretores, pagam
bons salários para os chegados, e conseguem
outras verbas públicas graças à
ligação com parlamentares de todos
os matizes. Até uma CPI já foi aberta
para investigar. São entidades ligadas
à educação, saúde,
amparo a velhos e crianças, asilos, orfanatos,
enfim, um sem número de picaretas, daí
a pilantropia, como diz a Associação
dos Auditores Fiscais da Receita Federal. Eles
investigam, apontam, reúnem provas contra
a safadeza, mas nada acontece. Que força
inexplicável possui essa gente?
HERÓDOTO
BARBEIRO é gerente de jornalismo
do Sistema Globo de Rádio e âncora
da CBN. Ele apresenta, também, o Jornal
da Cultura e o telejornal da TV Cultura de São
Paulo
Site: www.herodoto.com.br |