Uma das responsabilidades da mídia jornalística é jogar luzes nas estruturas do estado para que o cidadão que o constitui e o sustenta tenha condições de acompanhar seus movimentos. Essas estruturas podem ser de qualquer poder do estado —sejam elas na área do Executivo, Legislativo ou Judiciário. A tradição jornalística brasileira é de cobertura dos escaninhos dos palácios do Executivo e dos gabinetes de suas excelências, os parlamentares. Contudo, a mídia sempre dedicou muito pouco espaço para o noticiário do poder Judiciário, como se ele fosse o menos importante dos três. Essa tradição remonta a carcomida e obsoleta Voz do Brasil que vem do período da ditadura de Getúlio Vargas. Em uma hora de um programa chatíssimo, menos de dez minutos são reservados para a Justiça.
As polêmicas levantadas pelo Conselho Nacional de Justiça e sua corajosa corregedora, Eliana Calmon, abriram um espaço nunca antes visto na história desse país. A reação foi imediata com o corporativismo liderado pelas associações de magistrados e pelos próprios ministros do Supremo. O interesse da opinião pública, do Zé Povinho, do pagador de impostos, foi de tal monta que os mais empedernidos passaram a acusar os jornalistas de erodirem a imagem do Judiciário e a pôr a democracia em risco. Enfim, a culpa é da imprensa. A opinião pública não precisa ser consultada, nós sabemos a resposta da opinião pública. Essa frase é do presidente do Conselho Nacional de Justiça, e adversário do órgão que dirige, Cezar Peluso. O CNJ mesmo contra a vontade do presidente aprovou a resolução proposta pela corregedora Eliana Calmon, que proíbe magistrados de participarem de eventos patrocinados por empresas privadas em hotéis e resorts de luxo.
O debate perdeu o eixo. Não se discute se há ou não conflito de interesse quando os juízes e desembargadores se hospedam em hotéis de luxo pagos por empresas. Muitas delas têm conflitos judiciais. Poderia se discutir se a opinião pública suspeitaria que alguma empresa pudesse ser beneficiada bancando as despesas. O que se discute é que o assunto seja debatido em audiência pública, com o distinto público sustentáculo do estado. Debater sim, mas intramuros, em petit comité, só com a diretoria. O populacho, o povão, a corintianada não pode e não deve meter o nariz. No fundo, a culpa não é dos carregadores do andor, é da mídia, dos jornalistas, dos veículos de comunicação que insistem em acompanhar sessões do CNJ e divulgar o que lá se passa. É verdade que a corajosa corregedora está frequentemente na mídia. É ela que abre as portas dos tribunais e dos fóruns para que os jornalistas aprendam a noticiar corretamente o que se passa na penumbra do Judiciário. São novos tempos, os holofotes estão acesos, nem mesmo um apagão de ameaças vai fazer com que as notícias sobre o poder Judiciário tenham o formato da Voz do Brasil. O biombo caiu e é possível ver e divulgar o que se passa atrás dele.