Levar
a sério
O
convite me apanhou de surpresa. “É
muita areia para o meu caminhãozinho”,
pensei. Por sorte, antes que conseguisse abrir
a boca, compreendi que tal resposta seria completamente
inadequada. Afinal, o convite era para ocupar
uma cadeira na Academia Pelotense de Letras. E,
de uma futura acadêmica, no mínimo,
se esperaria uma linguagem condizente.
Se alguém lembrara
o meu nome para lugar tão importante, não
seria eu a contestar. Assim, aceitei.
A princípio, constrangida, por me julgar
inadequada, resumi os convites ao menor número
possível. Contudo, a Academia merecia ser
prestigiada com uma solenidade bem freqüentada.
Por isso, aos poucos, conforme os amigos foram
sabendo e começaram a se interessar, senti-me
à vontade para enviar mais alguns convites.
Uma amiga telefonou: é
pra te dizer que fiquei muito orgulhosa —e
havia orgulho e alegria em sua voz. A jornalista,
encarregada de escrever algumas palavras sobre
o evento, perguntou o que eu imaginava que o título
poderia acrescentar à minha carreira como
escritora. Dessa vez, a resposta foi pronta: maior
responsabilidade.
Na solenidade, a nova
acadêmica devia esperar que o paraninfo
fosse buscá-la para introduzi-la no recinto.
No corredor contíguo ao salão, isolada
do público, a mim só restava ouvir
o burburinho animado das conversas. Por elas,
dava para perceber que o público era grande
e estava muito à vontade. Quanto a mim,
estava curiosíssima. Nunca tivera oportunidade
de assistir à posse de algum acadêmico.
Contudo, quando entrei no salão e olhei
aquele mar de rostos amigos, risonhos, se algum
medo tinha, desapareceu. Mas, realmente, não
havia o que temer. O meu papel se resumia a obedecer
aos rituais, devidamente conduzidos pela presidente
Zênia de Leon.
O paraninfo era o professor
Wallney Hammes, encarregado de fazer a apresentação
da minha pessoa. Senti-me gratificada, ao ouvi-lo,
por compreender que levara a sério a sua
tarefa e pesquisara a obra, a fim de encontrar
o ser oculto nas entrelinhas.
Quanto a mim, também tinha uma missão,
essa bem mais fácil, pelo farto material
com que contava: devia preparar uma tese, para
entregar à Academia, sobre Antônio
José Gonçalves Chaves, patrono da
cadeira 16, que passaria a ocupar. Mais difícil
era a segunda parte da tarefa: apresentar, durante
a cerimônia da posse, um resumo da tese.
A dificuldade era resumir vida tão fascinante,
sem lhe roubar as cores.
Passei dias, distraída,
lendo livros de páginas esfareladas, nos
intervalos roubados às atividades diárias.
Encontrei inúmeras discrepâncias
nos diferentes relatos, o que me obrigou a procurar
fontes mais seguras, descobrindo pesquisadores
acostumados a passear pelo passado com a naturalidade
de quem vai à padaria da esquina. Tirei
dúvidas, aprendi. Conforme me enfronhava
na história do patrono, voltava à
formação da cidade de Pelotas, aos
homens empreendedores e cheios de idealismo que
deixaram suas marcas, porque não se omitiram.
Essa é a lição
mais significativa que a história tem a
ensinar: a coragem de aceitar os desafios. E,
ao aceitá-los, levar a sério. Não
julgar que se dá importância, tratando
com pouco caso coisas que para outros podem ser
importantes. Fazer o seu melhor. Depois, sentir-se
gratificado com a certeza de que contribuiu na
escrita de uma nova página.
MARTA
FERNANDES DE SOUSA COSTA é escritora
de Pelotas/RS, autora do livro Cá entre
nós e colunista do A Cidade |