O
significado da vitória de Barack Obama
VANDERLEI
BARBOSA
A história, ao
contrário do que equivocadamente disse
Francis Fukuyama, que decretou seu fim, é
sempre pródiga e surpreendente. E é
justamente na prodigalidade e na surpresa que
moram o admirável e a esperança.
O significado da vitória de Barack Obama
é um exemplo vigoroso dessa dimensão
da história. Contrariando todas as avaliações
da lógica do sistema, da ideologia dominante
e dos profetas de plantão, ele conseguiu
instaurar uma onda de esperança alvissareira.
O simbolismo dessa vitória é uma
prova incontestável de que a história
—ainda bem—, não tem a lógica
e o determinismo dos ideólogos —do
sistema hegemônico mundialmente integrado
que vem dominando o mundo desde o consenso de
Washington— mas tem uma força e uma
dinâmica que são invencíveis,
uma vez que segue a lógica do sonho, da
esperança e dos desejos.
Neste sentido, a eleição
do primeiro presidente negro, nos Estados Unidos,
tornou-se um símbolo de todas as possibilidades.
É a vitória que tem um significado
extraordinário no resgate da política
em seu sentido clássico como a arte de
realizar a felicidade do povo. A política
mostrou sua alma e o mundo pôde aproveitar
este momento para respirar a história.
A história está viva! É o
momento de estabilizar e resignificar o papel
do Estado e da eficácia da política
a propósito de orientar, responsavelmente,
a economia que mostra seus limites e sua perversidade
quando descolada da política. A economia
é um adolescente mimado que, cheio de si
mesmo e de dinheiro, mais cedo ou mais tarde,
acaba fazendo besteira. A política é
uma mulher sábia e prudente que, mesmo
quando vista como obsoleta, é a ela que
recorremos quando a crise nos toca. O mercado
e os liberais que o digam.
A outra conseqüência
da vitória é a democracia. A soberania
de um povo vale mais do que as dicas dos profetas
do capital. E, novamente, nos encontramos com
a antiguidade, berço do que a humanidade
tem de melhor, em termos humanos e civilizatórios
e que andava esquecido, não obstante os
limites da democracia grega. Outra idéia
que vem à tona com o êxito de Obama
é a de cidadania. Para Aristóteles,
cidadão significava aquele que participava
da vida da cidade —polis. E essa é
a onda que Obama ressuscitou na história
contemporânea, envolvendo jovens, idosos,
negros, brancos, latinos que vão continuar
participando dos esforços pela mudança.
A onda Obama mostrou com clareza os novos ventos
que já sopravam em outras partes do mundo,
mas teimosamente muitos insistiam não ver.
Ao sopro desta ventania de mudança, esperança
e valores clássicos, o mundo tem uma chance
histórica de dar início ao século
21 naquilo que ele pode ter de grandioso e nosso.
Os acontecimentos marcantes
do século 20, na ótica de sua dimensão
nebulosa —hegemonia do capitalismo norte-americano,
massacres, guerras, extermínios, genocídios—
segundo o historiador, Eric Hobsbawm no livro
Era dos Extremos, já foram suficientes
em termos de catástrofes: o século
20 foi “o século mais assassino de
que temos registro, tanto na escala, na freqüência
e na extensão da guerra que o preencheu
[...], como também pelo volume único
das catástrofes humanas que produziu, desde
as maiores fomes da história até
o genocídio sistemático”.
Nesta ótica, ainda segundo Hobsbawm, “houve
momentos em que talvez fosse de esperar-se que
o Deus ou deuses que os humanos pios acreditavam
ter criado o mundo e tudo o que nele existe estivessem
arrependidos de havê-lo feito”. Hobsbawm
é muito enfático ao afirmar que:
“A humanidade sobreviveu. Contudo, o grande
edifício da civilização do
século 20 desmoronou nas chamas da guerra
mundial, quando suas colunas ruíram. Não
há como compreender o breve século
20 sem ela. Ele foi marcado pela guerra. Viveu
e pensou em termos de guerra mundial, mesmo quando
os canhões se calavam e as bombas não
explodiam”. Este processo gerou um estigma
profundo, destruindo em muitos a certeza e a confiança
no futuro. São exatamente estas as conseqüências
da eleição de Barack Obama: resgatar
a confiança no futuro, na democracia, na
cidadania, na política e na pluralidade.
Estes são os novos conceitos que irão
orientar os próximos anos e oxalá
este século.
Voltando à história,
há mais de 40 anos, Martin Luther King,
precursor da esperança, fazia um discurso
que se tornou um grito no deserto e na selva do
capitalismo, mas agora, ao que parece, caiu no
solo bom das mentes e corações do
povo e seu discurso sensato ganha densidade, reafirmando
que um outro mundo é possível. Eis
o seu pensamento: “Hoje, nesta noite do
mundo e na esperança da boa nova, afirmo
com audácia minha fé no futuro da
humanidade. Nego-me a concordar com a opinião
daqueles que acreditam que o homem é, até
certo ponto, cativo da noite sem estrelas, do
racismo e da guerra, e que a radiante aurora da
paz e da fraternidade jamais será realidade.
Creio firmemente que, mesmo entre obuses que atiram
e canhões que ressoam, permanece a esperança
de um radiante amanhecer. Atrevo-me a acreditar
que um dia todos os habitantes da terra poderão
ter três refeições por dia
para a vida do seu corpo, educação
e cultura para o aprimoramento de seu espírito,
igualdade e liberdade para a vida de seu coração.
Creio também que um dia toda a humanidade
reconhecerá em Deus a fonte de seu amor”.
Este é um momento historicamente simbólico,
um momento de enormes desafios e uma grande oportunidade
de traçar novos rumos e novas perspectivas
de futuro. É tempo de esperança,
desejo e de convergências dos melhores sentimentos
de cada ser humano. É tempo de consolidar
a Democracia, como regra fundante da convivência
respeitosa entre os diferentes povos e culturas,
o que implica, necessariamente, a superação
da miséria, da violência, da corrupção,
das injustiças, dos preconceitos que são
estigmas que envergonham a humanidade diante de
tantas possibilidades que existem.
Este sonho histórico
deve estar sendo um pesadelo para a elite conservadora
de todo o mundo, que não aceita a mudança
e vê a história do alto de sua cegueira,
como uma dádiva sagrada aos “eleitos”.
Agora terão de aprender um novo vocabulário:
futuro, democracia, pluralidade. Ernest Bloch
tinha razão ao afirmar que “no futuro
habitam todas as possibilidades”.
O mundo vai viver um intenso
processo de realinhamento político, o qual
vai ter conseqüências positivas no
processo político mundial. No Brasil, a
oposição com sua alma neoliberal
e seu discurso de choque de gestão, modelo
conhecido por valorizar as privatizações
e o Estado Mínimo, talvez possa não
lograr êxito em suas expectativas eleitorais.
Quem ganha com isso? Todas as forças progressistas
da sociedade que, contra tudo e contra todos,
vêm dando novos rumos ao Brasil. Por isso,
a oposição deve estar rezando para
a crise arrasar o mundo, a fim de que possa ter
alguma chance. Porém, a esperança
continua vencendo o medo, pois os excluídos
e, sobretudo, a juventude já despertaram
da apatia. E como o Brasil vem demonstrando melhores
condições no enfrentamento da crise,
comparada exageradamente por alguns como equivalente
à de 1929, o país continuará
no rumo do aperfeiçoamento político
e democrático.
VANDERLEI
BARBOSA é doutor em Filosofia
e História da Educação pela
Unicamp, coordenador do Núcleo de Apoio
Didático Pedagógico e da Comissão
Própria de Avaliação e professor
dos cursos de Pedagogia e Letras da Unipinhal
e professor de Filosofia, Geopolítica e
Antropologia da Religião do Colégio
Divino Espírito Santo |